"Não me impressiono com cifras, títulos ou promessas. Não acredito em palavra dita ou escrita. Acredito em atitudes, somente. Palavras, eu já tenho. Nasci com esse dom. Posso te contar minha vida inteira e, ainda assim, você não vai saber nada de mim. Quer me conhecer lendo meus textos? Nem tente. Eu não conseguiria descrever um décimo de tudo que eu penso mesmo que eu soubesse todas as palavra do mundo."

quinta-feira, 11 de agosto de 2011



“Acho que não precisava ser assim. É tudo tão forte, tão profundo, tão bonito, não precisava doer como dói. Eu não podia apenas sorrir quando me lembrasse de você? Mas acontece tipo assim: lembro do seu rosto, do seu abraço, do seu cheiro, do seu olhar, do seu beijo e começo a sorrir, é assim mesmo, automático, como se tivesse uma parte do meu cérebro que me fizesse por um instante a pessoa mais feliz do mundo, mas que só você, de algum modo, fosse capaz de ativar. Eu sei, é lindo. Mas logo em seguida, quando penso em quão longe você está sinto-me despedaçar por inteira. Sabe a sensação de arrancar um doce de uma criança? Pois é, sou essa criança. E dói. Uma dor cujo único remédio é a sua presença. Então sigo assim, penso em você, sorrio, sofro e rezo, peço pra Deus cuidar da gente, amenizar essa dor e trazer logo a minha cura.”
- Caio Fernando Abreu.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011




Sei que você coça o cotovelo quando fica nervosa. Sei que levanta as sobrancelhas ao sentir ciúme. Sei que pinta as unhas de cor escura quando está excitada. Sei que ajeita os cabelos nas orelhas para despertar. Sei que ao receber um beijo diz pára porque deseja que continue. Sei que repete uma frase do filho pequeno para perdoar minha ausência. Sei que somente deita sem usar as cobertas para me esperar. Sei que usa anéis para não deixar a aliança sozinha. Sei que baixa o olhar para que eu pergunte o que foi. Sei que não gosta de chavear a porta. Sei que toma banho sentada para alisar as pernas da tristeza. Sei que o pescoço é seu ponto fraco. Sei de sua vaidade ao receber convites inesperados. Sei que adora ser abraçada de costas. Sei que dança com os olhos fechados para suportar os meus olhos por dentro. Sei que usa saia para lembrar da infância. Sei que corta a respiração para que apanhe com a boca. Sei que sua raiva passa depois de chorar. Sei que depois de chorar refaz o batom. Sei que seu riso nunca abafa o meu. Sei que toma um gole de vinho para dois goles de água. Sei que não falará até a segunda garfada. Sei que prefere a cadeira da direita na cozinha, o lado esquerdo de meu corpo. Sei que demora para contar seus problemas na conta. Sei que não troca as lâmpadas, mas segura a escada. Sei que tem medo de altura. Sei que fuma para lembrar da agenda. Sei que me provoca até me irritar. Sei que depois me acalma para provocar de novo. Sei que canta no carro para me dar um rumo. Sei que aperta minha palma encaixando os dedos. Sei que grita quando a comida perde o ponto. Sei que adora dormir no sábado de tarde. Sei que odeia que roube seus chinelos de perto da cama. Sei que só dorme com as portas fechadas do armário. Sei que liga o ar-condicionado para fingir inverno. Sei que extravia os óculos de sol no porta-luvas. Sei que acorda devagar, mal-humorada. Sei que prefere as mesas perto das janelas dos restaurantes. Sei que não deixa de espiar a própria silhueta na vitrine espelhada. Sei que o provador das lojas é a sua balança. Sei que ela gostaria de visitar a mãe mais vezes por semana. Sei que gostaria de ter mais amigos para não depender de mim. Sei que o gosto da fruta melhora com os dentes. Sei que segura seus seios como se fossem minhas mãos. Sei que não é de hoje que amamos tanto o que nunca declaramos.
Fabrício Carpinejar